Pecora Nera
Encruzilhadas Típicas Portuguesas
ParteII

Dezanove horas e a noite cerrada,
o céu coberto não permitia divisar a luz da lua fosse qual fosse a sua cara «É
noite que promete e se os doces irmãozinhos nos concederem teremos aí um
profundo nevoeiro p'rà nossa esconda», «ai q'aredo vem p'raí Sebastião», «vai
à... bom, come o pão e comam todos a noite vai ser longa,» disse Vacas a Lino e
a todo o pessoal dessa noite saídos da cozinha com calos nas mãos e quebranto
na coluna «Sebastião aqui?» histerizou Borrego correndo da sanita e limpando as
mãos às calças «merda e silêncio... comam foda-se, ainda esperamos a cáfila que
nos vai apoiar enfim e são dezoito se nos vêm comer esses trampas vão-nos
devorar as reservas»... «sempre podem comer no cemitério» disse um dos sofredores «e tu ó puta podias era comer
no cu... de videntes e bruxos só pode falar quem o é!» Borrego ficou fodido e
(ai de mim saindo daqui só poderei narrar p'ró... Vilhena), levou um tempito
até se acalmar mas lá que punhetava a mesa, punhetava.
Cerca de dez carros seguiam a
carrinha do Vacas no meio dum cada vez mais serrado nevoeiro, para quem visse de
fora, aquele cortejo era terrificamente funerário. Os veículos rodavam a uma
velocidade muito reduzida através da auto-estrada quando de repente se
desviaram para a direita para entrarem numa estrada secundária, passado uns
vinte minutos de curvas e contracurvas entraram no Tojal virando novamente à
direita para se dirigirem à imponente igreja situada mesmo no centro de uma
encruzilhada em 'T', a tétrica procissão virou novamente à direita passando
pelo cemitério cuja rua da entrada fazia também uma encruzilhada em 'T' e cerca
de três quilómetros alcançava a encruzilhada em cruz o local ideal para o
ritual dessa noite. Todos os veículos inverteram a sua marcha e foram arrumados
entre as árvores estrategicamente virados no sentido do Tojal por qualquer necessidade
de fuga... não por acção da polícia mas por qualquer gang que se pudesse ter
formado pelas constantes incursões àquela encruzilhada que aterrorizava toda
população só de imaginar a presença do doce irmão Vacas, quanto mais com
comitiva e àquelas horas da noite.
Ignições e luzes desligadas,
vidros cerrados, toda a gente em absoluto silêncio aguardava a saída de Vacas
que esperava o sinal do além para iniciar os trabalhos. Até ele sair ninguém se
podia mover... A meia-noite soara já há cerca de vinte minutos dos imponentes
campanários da igreja e Vacas como que dormindo profundamente não dava sinais
de vida, as pessoas impacientavam-se mas não se atreviam a qualquer atitude, os
veículos atulhados de fumo, os cinzeiros a transbordar de beatas, as pessoas
praticamente coladas umas às outras pelo suor, sufoco e medo. Repentinamente
ouve-se um forte bater de porta toda a gente se apressou a sair... Vacas
finalmente tinha recebido o sinal e encontrava-se no centro da encruzilhada de
braços erguidos e as palmas das mãos escancaradas aos céus. Deu-se o início da
sagrada obra, da elevada alquimia do marrafo ou do bagaço, na falta do anterior
e zás! Vacas, Lino e Borrego estampam três garrafas de litro do digno líquido
no asfalto enquanto os outros dezoito bruxos
acendiam velas brancas e azuis nos tocos e reentrâncias das oliveiras e
azinheiras... parecia noite de natal árvores brotavam pela luz das chamas no
meio dum nevoeiro cerrado; zás, mais três garrafas e berros de invocação a
Lúcifer. Os dezoito terminando o acender das velas começaram a retirar dos
veículos todo o material para a divina mesa e zás, mais três garrafas de bagaço
e marrafo se estoiravam no chão « Cabrão! Estou aqui com todos estes caralhos,
alço-te o dinheiro, não me vais abandonar e deixar estes teus filhinhos
abandonados e eu desacreditado; surge puta! »
Vacas permanecia no centro da
encruzilhada, Borrego e Lino um passo atrás todos em disposição triangular, e
mais três garrafas estoiradas no chão... os dezoito atarefavam-se à direita no
cimo do monte e a multidão atrás já quase se vomitava com o forte odor d'aquele
líquido alquímico « Irmão cabrudo que poderá faltar aqui, por ti tudo executei,
mas não m'atentes q'eu conheço as tuas manhas... se queres mamar mama noutro
q'u meu não to vendi, a alma enfim é como o outro... Pelos colhões da minha
mula !?! » Um estrondo e relâmpagos estremeceram a terra, o nevoeiro cor de
chumbo parecia que a qualquer momento ia desabar arrastando consigo todo o céu
sobre a terra quando uma forma altíssima duma beleza metálica indiscutível
acenou um sim com a cabeça apenas dobrando ligeiramente o férreo pescoço e zás
mais três garrafas de bagaço e marrafo, « olh'ò D. Sebastião » « Vai às putas
Lino, comecemos a vossa merda foi aceite », os três ajoelharam-se e dobrando-se
beijaram o chão pejado de cacos que apesar do nevoeiro pelas centenas de velas
acesas brilhavam dando um horizonte vítreo de largas dezenas de metros. Árvores
em chamas à esquerda e carreiros de
velas à direita indicavam o caminho para o local do grande banquete no cimo dum
monte em forma de altar de cerca de três metros de altura ladeado por um velho
carvalho cuja copa formava o tecto daquele templo. «Pólvora em grão» gritou
Vacas, «primeira toalha de mesa», voltou a berrar e assim foi feito «pólvora em
grão», voltou a rosnar e deste modo as dezenas de toalhas de linho recheadas de
pólvora formaram a mesa dos deuses, apenas a toalha cimeira não levou esse grão
maldito que um dia, noutra investigação, ia estoirando comigo - eu também tenho
boas desculpas... deve ser do karma.
A mesa estava digna do universo,
toda a base daquela mastaba circundada de círios acesos parecendo faróis no
vazio do universo, a brancura das toalhas encimadas por todas aquelas iguarias
a encosta do monte coberta de flores e velas, os candelabros acesos sobre a mesa « afastem-me esses cabrões! »
gritou Vacas do cume e de braços erguidos dedicando a encomenda, Lino soltava
agora os galos e as galinhas negras, Borrego ordenava as pessoas presentes a
largar muitas moedas brancas pelo campo circundante, enquanto os dezoito se
apressavam a dirigir toda aquela putalhada (haja deus), aos seus veículos e a
organizar a sua saída dos em direcção ao cemitério, mas de modo a ficarem
escondidos. Lino liga a ignição da carrinha já ocupada com os restantes irmãos
- os outros seguiram nos outros carros a fim de organizar a esconda -, Vacas
desce dirigindo-se ao centro da encruzilhada e zás garrafa atrás de garrafa,
mais três, abaixou-se e erguendo-se lançou três vezes beijos aos céus voltou as
costas e acomodou-se na carrinha que Lino imediatamente fez avançar dali para
fora cerca de um quilómetro. Borrego, atento a todos estes movimentos sobe ao
cume, despeja todas as largas dezenas de bagaço e marrafo sobre o altar do demo
desce ao sopé pegando de imediato numa tocha encimada de sebo ateia-a
lançando-a sobre o centro da divina refeição. Em rápida esgalha entrou na
carrinha e ainda não tinha fechado a porta já Lino a fazia desarvorar a toda a
brida para se reunir aos outros.
Vacas saiu como um relâmpago e toda aquela gente o seguiu para
trás de um outeiro nas traseiras do cemitério... os carros em absoluto silêncio
e escuridão, todos acocorados e de repente Buuuuuummmmmmm, tudo estremeceu como
se do fim do mundo se tratasse « a oferta está entregue e como vedes bem aceite
» afirmava Vacas enquanto limpava as mãos às nádegas, Lino correu a
sacudir-lhas « ó puta não te chega o javardo que tens... isso não é cu é túnel
do Rossio, Borrego! trata aqui da tua fêmea e organizem-me a espera que estes
cabrões com o sucesso ficaram surdos. »
Após cerca de meia hora de espera
ninguém surgiu a procurar a razão do acontecimento... também, coitada da
população aquilo há anos que parecia Montemor-o-Novo, carnaval todos os dias.
Dezoito mais três vint'um, treparam o muro e esgueiraram-se no cemitério que em
vinte minutos tinha dez campas abertas assim como os devidos caixões - os mais
recentes de preferência -, fotografias com os despachos na boca do defunto,
corações de porco apodrecidos e cheios de pregos contendo material que me obsto
a descrever porque quero ver se ainda hoje consigo comer, no interior do peito
rasgado com bisturi descartável, tudo devidamente reposto e composto com mais
flores como se o enterro tivesse sido há momentos e enquanto todos davam às de
vila-diogo Lino, Borrego e Vacas enchamearam de luz todas aquelas campas com
mais dez centenas de velas assentes em pólvora em grão coberta com uma fina
camada de terra, saindo à pressão daquele sinistro - mas por causa da pólvora
-, ambiente. No passo em que entraram no Tojal assim saiu a fúnebre comitiva
espalhando o terror por todas as janelas cerradas e aferrolhadas e já se
encontravam na estrada secundária afastados cerca de três quilómetros
Buuuuuummmmmm e Vacas dando um estremeção no assento « ó Borrego estás sempre a
exagerar na carga », « ó Lino enquanto conduzes para eu descansar manda-me essa
doce puta à merda.»
Rolavam agora os veículos na
estrada do norte direitos à praia da Foz do Arelho para finalmente executarem o
último ritual: o trabalho no mar. «São três menos dez, tudo correu muito bem e
estamos mais que a tempo para terminar tudo antes do nascer do sol» afirmou
Vacas como que pensando mais do que falando com uma lentidão que exteriorizava
bem o seu profundo cansaço. «Ena pá, olha-me como o nevoeiro está a levantar, a
continuar assim não tardaremos a ver as estrelas, a lua, a estrela da man...»,
«sacristão da merda - berrou Borrego erguendo o punho ameaçador - não agoires
minha besta, deixa lá as coisas levantarem-se por si! Deixa-te de comentários,
que quando falas só dás azar.», «Esse gajo não aprende - disse Lino - vocês
lembram-se do que aconteceu quando esta puta consertou o púlpito da igreja? »
As gargalhadas inundaram a carrinha a tal ponto que todos os sonolentos
entraram numa espertina equivalente ao efeito de seis ou sete bicas tomadas
duma assentada. De repente um medonho relâmpago passou por cima do veículo
ameaçando serrar-lhe o tejadilho, todos se abaixaram com o susto e buuuuummmmm
estoirou um trovão que estremeceu tudo e todos «granda merda - disse Vacas
alçando a mão ameaçando-lhe uma lambada - sacristão duma puta», «esse cabrão
deve ter o anjo da guarda de pernas pró ar», disse Lino; novo relâmpago e novo
ribombar e a cena repetiu-se mais uma vez quando instantaneamente as comportas
do céu se escancararam lançando um dilúvio acompanhado de um vento quasi
ciclónico. «Já está», resmungou Vacas, «mas quem teve a ideia de deixar vir
este trafas... não o deve conhecer concerteza», «foi um casal que vem aí num
desses carros e que foi esta puta que os conduziu a nós... pediram por tudo
para que ele também viesse para não terem tanto medo», disse borrego a Lino
«então é porque não o conhecem mesmo.
Luís,
filho da Trafaria, trabalhava por especial favor do senhor Prior como sacristão
numa igreja perto de Camarate; o padre já conhecia de profundis os desaires desta besta «é muito bom moço
confidenciou-me um dia o jovem prelado «apenas invertido em tudo.» Gargalhou o
sacerdote. «O caso é que os tios, que moram aqui perto e que são umas
autênticas almas cristãs de uma devoção que a tudo se sacrificam a bem da nossa
igreja que luta sempre com muitas dificuldades, me pediram por tudo para que o
sobrinho pudesse ocupar o lugar do sacristão que havia morrido e eu acedi
pensando que quem sai aos seus não degenera... pensei mal. Bom, a seriedade
dele é inquestionável do mesmo modo que aquelas mãos são um desastre. Um dia ao
entrar na igreja espantei-me, o corrimão da comunhão e o púlpito de madeira
brilhavam como novos avancei devagar contemplando aquela imagem e abri a
cancela do corrimão que dá acesso ao altar mor, aproximei-me do púlpito quando
de repente o Luís surge a meu lado», «tudo feito por mim durante esta manhã»,
«disse-me com um ar todo orgulhoso e não era para menos, o púlpito estava todo
desengonçado ameaçando ruir a qualquer momento mas agora não! Ali estava
brilhante e imponente.» «tudo bem reforçado com material de primeira» dizia-me
Luís cheio de confiança «e zás dá-lhe uma palmada no tampo... desabou tudo.
Como um mal nunca vem só e histérico-assustadiço como é recuo num pulo e
estatelou-se contra a cancela que desabou arrastando consigo uma parte do
corrimão.» A minha conversa com o Prior como pode ver o leitor é muito
elucidativa para explicar os acontecimentos por mim narrados acima sendo este e
outros desaires provocados pelo sacristão de Camarate mais do que conhecidos
pelos ocupantes da carrinha, pelo menos.
A
comitiva, novamente a passo fúnebre pela intensa chuvada e a tempestade que ameaçava
continuar nas próximas horas, entrava agora nas Caldas da Rainha, virando à
direita para entrar na estrada para a praia da Foz do Arelho.

Ignições desligadas, escuro
e silêncio absoluto, todos de novo aguardavam que o doce irmãozinho Vacas outra
vez em profundo sono ou transe, recebesse o sinal do além para dar início ao
último trabalho. Janelas cerradas, veículos inundados em fumo e suor enquanto
no exterior o dilúvio prosseguia com rajadas de vento como se a natureza a
qualquer momento desabasse sobre tudo, todos e sobre si própria. Vacas levantou
a cabeça e com a mão lançou três beijos ao ar « estamos autorizados -disse -,
mas vamos esperar mais um pouco... até aí pelas quatro e meia », « talvez os
doces irmãozinhos permitam o abrandar de toda esta tempestade... » « nem penses
nisso Lino, a merda que estes gajos fizeram que nem sei como tudo até aqui tem
sido tão bem aceite mais o perigo do cabrão do sacristão... e tu Luís cala-te
senão esfolo-te.» terminou ameaçadoramente Borrego «vá lá deixa lá esse pobre
diabo em paz afinal lá que tem boa vontade tem só que é imprestável.» Lino
tentava deitar água na fervura em que o Borrego se encontrava, quanto a Luís
chorava convulsiva e amaricadamente pedindo desculpas «'tás a ver - disse
Borrego - e nós desatamos a rir à gargalhada... o gajo mais o anjinho da guarda
dele estão todos invertidos é o que é.» Riam que nem uns perdidos ao ponto de
Vacas de tanto se torcer desatar aos soluços « foda-se não há p'raí um bocado
de pão e água, o estômago já me rosna», «nem cheta, nem xica... ah cada vez
mais penso naqueles doces pratinhos que entregamos na... », « merda Borrego
esquece a encruzilhada ou a maldição cai-te em cima. » Dificilmente se
conseguia ver Lino colérico, mas nesta matéria do sagrado o gajo tornava-se um
vulcão contra o vitupério - o narrador está admirado de como cada vez mais se
descobre especializado em antinomias.
Vacas
solene e lentamente abriu a porta da carrinha aspirou o temporal marítimo e
como ele todo os demais da comitiva foram procedendo saindo fumo dos veículos
como se estivessem gripados no entanto ninguém se atreveria a sair enquanto
Vacas não o fizesse. A chuva desabava impiedosamente e o temporal só não se
ouvia na sua plenitude pelo tremendo som proveniente da quebra das monstruosas
ondas... o mar encapelado faria seguramente o Adamastor refugiar-se na sua
caverna. Finalmente Vacas saiu agarrando-se como podia ao veículo e torneando-o
pela frente virou à direita no sentido do primeiro dos muitos monturos de areia
que amuralhavam a praia para aí se ajoelhar e lançar três beijos: um ao céu, outro
ao mar e o último à areia. Os outros começaram a sair e quem se atreveu a abrir
o guarda chuva viu varetas e tecido a voar ficando apenas com uma bengala. Por
detrás de Vacas, Lino e Borrego - todos ajoelhados no monturo, uma gorda e
escancarada gargalhada ecoou « merda só cá faltava...» « ai Vacas meu doce
irmãozinho - retorquiu Custódia -, estamos no mar da nossa Mãe cuidado com a
porra do falar ademais foram os doces irmãozinhos e a Pomba-Gira que aqui nos
conduziram a esta hora.» «Nós?» inquiriu Borrego, «sim filhote, a mim, à
Dulcineia e ao imprestável Sebastião. Mas... ó merda! aquele cabrão ali é o
sacristão?» Vacas desatou a rir seguramente mais ruidento do que o chavascal
divino no Monte Sinai aquando das Tábuas do Decálogo foram esculpidas na rocha
em fogo, raios e coriscos, perante Moisés. «Caralho! Quem teve tal ideia...
isto ainda vai dar mau resultado... invertido de merda!» «Sebastião, mas não
está nevoeiro.» Lino ria que nem um perdido «deixa o el-rei em paz, já temos
problemas que cheguem p'ra estares a invocar um amarrado.» Rosnou Vacas
benzendo-se.
Uma procissão de
encharcados-até-aos-ossos avançava pela praia em direcção ao mar lenta e
pesadamente de patas enterradas até às canelas na areia como zombies acabados
de sair das sepulturas. A chuva e o vento fustigavam aqueles desgraçados que se
arrastando pararam ao som do brado de Vacas «alto, é aqui!». Borrego, Lino e
Custódia com luvas de coro puseram-se de cócoras e iniciaram a abertura de uma
cova de cerca de seis ou sete metros de comprimento por quatro da largo e com
um mínimo de um metro e meio de profundidade. Da areia retirada outros iam
fazendo uma muralha à volta da vala de modo a que, apesar da intempérie, lhe
pudesse conceder mais de meio metro de altura. Tarefa terminada e Borrego no
fundo daquele túmulo recebia agora maços de cem velas atadas com guita dispondo
ordeiramente cerca de trinta desses e após tudo isto desatou a acender maço a
maço usando, no mínimo dez fósforos de cada vez, em pouco tempo devido à grande
persistência saltou porque a vala se encontrava repleta de fogo... não havia
vela que não estivesse acesa e o calor ali era infernal.
As vagas espraiavam-se chegando
por vezes a aproximar-se até cerca de três a dois metros e meio da fossa das
velas perigando a situação porque aquilo ali não se podia apagar até à
consumação do trabalho. Urgindo a situação Borrego e Lino despiram-se e já em
cuecas, começavam a amarar ao cinto de mergulhador com que cada um deles se
tinha cingido os cerca de trinta frascos de perfume para ungirem as ondas
miraculosas; depois, correndo com firmeza mergulharam decididos pró que desse e
acontecesse na primeira ante rebentação daquela muralha de cerca de três metros
ou mais e deste modo, já fora dos perigos da rebentação, começaram a despejar sobre
as cristas das ondas frasco a frasco de perfume sem deixarem de intervalar com
a dedicatória implícita. Já terminada esta tarefa fizeram sinal para terra onde
todos em suprema expectativa rezavam e mesmo muitos choravam pela dedicação e a
vida daqueles que se ofereciam pela vida de outros que desconheciam. Ao sinal
recebido Vacas deu início à abertura das garrafas de espumante, meio doce -
para a Mãe dos seres tem que ser deste -, sendo que à vigésima terceira garrafa
Lino e Borrego aterraram no espraiar
de uma onda « apanhámos a boleia certa » disse Lino tiritando e gemendo « o
cabrão do táxi era dos antigos » do mesmo modo estremecia e se contorcia
Borrego... ninguém dos assistentes a não ser Vacas e os outros irmãos puderam
imaginar que aqueles estertores apenas eram francas gargalhadas de enregelados
bem sucedidos, quanto mais não fosse por ainda estarem vivos. «ai q'a merda da
chuva nunca mais pára» gritou o sacristão em doida histeria pelo que assistia
«ó meu cabrão...» gritou Lino avançando ameaçadoramente para ele enquanto
apertava os punhos da camisa «hei! Calma aí ò Lino - gritou Borrego -, não te
esqueças que essa puta é toda invertida» e zás, repentina e miraculosamente a
chuva e a tempestade amainaram ao ponto de em poucos minutos o céu se tornar
límpido. «Rápido comecemos a lançar ao mar as braçadas de flores.» Lino,
Borrego, Custódia e Sebastião usando o máximo de balanço lá iam lançando-as de
modo a alcançar o muito mais para além das cristas das ondas... é fundamental
que as flores sejam levadas para o mar alto, azar é se espraiam nalguma
rebentação na praia em que nos encontramos. O grito de sucesso não se fez
esperar entre toda aquela multidão quando a última braçada de flores
desapareceu totalmente da vista levada pelas correntes da nossa Mãe dos mares -
acho que me estou a converter.
Vacas começou por elevar aos céus a primeira garrafa de espumante
e entre rezas e dedicatórias bebeu um trago da garrafa dando a beber outro
trago ao ofertante depois do que a entregou a Borrego para a lançar ao mar bem
longe da crista das ondas e deste modo procedeu até à última das cerca de
trinta garrafas. Beijos alçados aos céus, ao mar e à areia por todos os
presentes e em especial à Mãe dos seres fechou o trabalho, voltaram-se e à
volta da vala ainda em fogo viram o sacristão a saltar e a cantar de alegria
refrães da sagrada e variegada ritualística católica « ò meu filho da put... »,
tarde demais o fogo que emanava da cova extinguiu-se repentinamente, « calma,
tudo terminou bem não quero aqui disputas, » « olha! por putas não foi esta
puta que anulou o fogo - disse Lino a Borrego que ainda resfolgava -, a verdade
é que as velas queimaram na totalidade » e rindo todos repentinamente se viram
inundados até aos joelhos pelo espraiar de uma onda que inundou a vala das
velas aplainando toda a areia no seu retorno e inclusive arrastando as pessoas
que ajudando-se umas às outras e agarrando-se como podiam lá se safaram. Vacas
saltava gritando aleluias conjuntamente com Borrego, Lino, os dezoito e outros
tantos, estes últimos à medida que iam entendendo que todo aquele final
significava aceitação por parte do além e boa sorte para eles... quanto mais
não fosse a liberdade para futuras putanhices.
A
ténue aurora avisando o amanhecer erguia-se diante de todos olhos permitindo
antever um belo dia de sol. Eram já seis e um quarto da manhã quando aquela
multidão abandonou a praia e ao chegarem junto dos carros viram o café dum
restaurante aberto e como é óbvio, todos para lá se dirigiram o que após a
confirmação de que estava aberto para pequenos almoços provocou o espraiar daquelas gentes por todo o seu
interior. Após um bom repasto e perguntas como « ò Alberto tens lugar p'ra mim
no teu carro... », entre abraços, bênçãos, despedidas e apertos de mão - tudo
acompanhado de expressões de eterna gratidão à laia de dé colores -, lá foi marchando o séquito cada um para suas casas,
ficando no café apenas Vacas, Lino, Borrego, Dulcineia e Sebastião. «ò caralho
- exclamou Borrego - e a puta do sacristão que ainda há pouco entrou nos
sanitários?» «tá em paz q'esse já lá vai a caminho do redil do senhor Prior»
ironizou Vacas perante o ar aflito que lhe lembrava a máxima do panasca que diz para o cu «porque é que pelo menos uma vez não engatas
tu.»

Em
casa de Dulcineia, enquanto todos ainda dormiam, Borrego atarefava-se como
sempre na cozinha dedicando-se à confecção duma almoçarada em grande para
todos, afinal os trabalhos tinham sido todos in extremis e as bocas a alimentar somavam nove, cinco adultos e
quatro fedelhos que são sempre os que têm mais apetite acrescentando o facto de
pela ausência dos pais se mantiveram na cama por falta de matéria-prima para o
pequeno almoço e mesmo que esses lá tivessem estado não tinham cheta donde as
coisas ficavam na mesma apenas acrescidas do trabalho baixo jejum que cabia ao
casalinho mais velho: assaltar as vivendas dos veraneantes para gamar dispensas
e arcas congeladoras, como era costume diário. Tais pensamentos ainda mais
estimulavam Borrego na labuta que para compensar o cansaço, as dores por todo o
corpo e as muitas mazelas larilando larilava
«Cruzes, figas, anjo
bento,
Vade retro, Satanás!
O que cozinho é
defumadoiro,
P'ra tudo ficar p'ra trás.
P'ra trás mija a burra,
P'ra diante é que é o
caminho,
Maria, José e o menino,
Assim alcançaram o Egipto,
Vitoriosos na sua fuga...»
«Canta, canta meu Borreguinho
canta q'hoje és música p'ròs meus ouvidos é incrível como a tua voz hoje me
despertou cheio de afecto, carinho e boa disposição.» Saudou Vacas inebriado de
alegria «quem diria - retorquiu Borrego -, já todo vestidinho lá se foi a minha
doce matinal visão...» «Vai à merda » regurgitou Vacas engasgando-se de riso ao
entrar na casa de banho. À medida que
já a tarde decorria seres viscosos pelo curto sono e denso cansaço - como
noivos à antiga após a noite de núpcias - «ai porra, as minhas costas » rugiu e
riu Custódia sem esconder um esgar de dor nos costados enquanto se dobrava para
massajar os joelhos e os músculos enrijecidos das suas belas torneadas pernas.
Os dez à volta da mesa banqueteavam-se sofregamente tendo como
sons de fundo o mastigar, o sorver, o engolir, os ruídos dos estômagos, do
contorcer dos intestinos, o bater dos talheres acompanhados de muitos arrotos e
alguns peidos... bom, paciência... parece-me que quando acabar com esta
exposição me vou ter que resignar a uma profunda desintoxicação
linguística
e o que vale é que me lembrei de usar pseudónimo. O ritual do café acompanhado do
acender dos cigarros, quais cachimbos da paz, por parte de alguns deu início ao
ressurgir do som da voz « ò Sebastião levanta-me esse cu da cadeira e vê se
tratas de me levantar esta mesa e limpar esta chafurdice toda, mas arruma-me
tudo direitinho na cozinha sem esquecer de passar tudo por água antes de meter
as coisas na máquina, que quanto a mim já me bastou o dia de ontem, a directa e
o fazer o banquete de hoje! » Sebastião rosnou mas borrego apressou-se a
prosseguir « rosna mais que eu arrebento-te com uma boa parte do teu karma...
imprestável de merda; ouve lá ó Dulcineia este cabrão quando te fode mexe-se ou
és tu que fazes tudo por ele? » « o tipo nem cu que se veja tem... » gargalhou
Lino passando-lhe a mão pela bunda quando Sebastião passou por ele carregando
uma boa dezena de pratos e travessas. Vacas tal como os outros, incluindo os
três filhos mais velhos riam a bom rir « bom, mas vamos ao que interessa »
impôs Vacas exigindo ordem « vamos embora putos desandem daqui p'ra fora toca a
ir brincar que isto agora é só para adultos mas primeiro vão ajudar o vosso pai
antes q'u cabronete parta mais da merda que me resta. » Lino como sempre
incumbiu-se do controlo da putalhada especialmente pelo mais pequenino, o
quarto, ter apenas três anos «vê lá não vão esses gajinhos dar nas vistas e
começar p'raí a surgir uma vaga de credores... ondas e água já nos chegou a
desta madrugada » gritou Vacas e prosseguiu « Agora nós!

Dulcineia e Sebastião
tinham conseguido o aluguer dum espaço com um quintal circundante para montarem
um restaurante. O enorme espaço exterior nas traseiras foi vocacionado para
barbecue, um idêntico na frente para esplanada enquanto os laterais foram
dedicados para jardins: um com parque infantil para crianças e o outro com mini
golfe e variados jogos para adultos. O interior, o restaurante propriamente
dito, também era de enormes dimensões e possuía uma cave de área idêntica, tudo
isto junto à estrada no caminho de Mafra para a Ericeira. Do outro lado da
estrada e mesmo em frente ao restaurante alugaram aos mesmos proprietários uma
quintinha com uma belíssima vivenda térrea excepcional para todos e em especial
para as crianças tudo por uma pechincha ou não fossem os senhorios Testemunhas
de Jeová só que o bom Deus se deve ter esquecido de enviar uns anjinhos
(normalmente aparecem em grupos de três talvez por os humanos serem duros de
ouvido), para os avisar sobre o tipo de cabrestos que estavam a apoiar de alma
e coração chegando ao cúmulo de só lhes começarem a cobrar as rendas quando a
actividade comercial do Comam-Me Todos
Ldª (nome do restaurante), começasse a ter clientela garantida e quanto à
habitação iriam pagando conforme pudessem « ò meu filho da puta » vociferou
Vacas a Sebastião « com todas estas condições até um possesso em estado de coma
fazia dinheiro! »; « calma... » interpôs Custódia num jocoso sotacar alentejano « a merda já está
feita e inunda-os até ao tecto. Até onde pude ver estes tipos compraram a
crédito retretes e lavabos dos melhores, maquinaria de cinco estrelas, mesas,
balcões, mobília... eu sei lá, tudo do mais caro e olhem que a madeira mais
barata aplicada em tudo é o castanho e a nogueira, para não falar dos mármores,
dos azulejos, enfim de toda a decoração quer do restaurante, do barbecue, da
esplanada...», «sim - afirmou Borrego - olhem-me só p'ró luxo desta vivenda »,
« a relva aparadinha, um jardim cheio de flores, árvores frondosas e belas,
baloiços... ai, isto faz-me lembrar o Varatojo...» gritou Lino da cozinha
enquanto enchia copos de laranjada para as crianças.
Sebastião
já despachado dos afazeres, sentado ao lado da sua mulher, estava cabismudo e
cabisbaixo «tudo começou bem - encetou Dulcineia em voz tão triste quão melada
-, tudo começou muito bem. As condições eram as melhores já que o meu marido
auferira de uma indemnização da empresa em que trabalhava, afora os ganhos por
biscates e ambos adquirimos dinheiros por heranças. Eu possuía uma conta
bancária recheada com o que tinha recebido do I.A.R.N. por causa da
descolonização de Moçambique e da minha fuga tendo perdido lá tudo o que
possuía. Perante isto e os dízimos que ofertávamos os anciãos e o pastor da
nossa Igreja incentivaram-nos à formação de um negócio, preferencialmente
dentro da Indústria Hoteleira com quem tinham bons e inúmeros contactos,
dando-nos dinheiro para o arranque a fim de deixar o nosso para futuras
necessidades, directrizes, apoiando-nos com orações sem nos deixarem de avisar
sobre as bênçãos espirituais concedidas a quem entrega o dízimo certo e isto
nós cumprimos à risca... eles abençoaram tudo depois de expurgar alguns
demónios que dominavam o restaurante e a casa tudo a bem do negócio e da fé...»
« Por muito menos maná
Vomitou Israel no deserto,
Se Moisés implorando
berrava
Deus, por tal, o povo
amaldiçoava.
Mas cabrões com'estes não
há
Que por tanto maná dado e
certo,
Vomitaram dízimos e
festas...
Lhes falasse Deus e lhes
chamaria bestas. »
« Ó Borrego vai larilar p'rò
caralho! », « olha aproveita o microfone do Lino mas canta baixinho à noite...
». Vacas exausto daquela veia poética e Custódia a começar a entender e a
sentir o porquê remeteram em uníssono o Borrego «À MERDA!!». «Digo-vos já
qu'isto necessita de estratégia imediata...» falava Vacas quando Trrrrrriiiiiiiimmmmm! «Merda! Lino,
esconde-me os putos num quarto, que nós todos vamos para o outro... não quero
barulho nenhum e tu Dulcineia vai à porta... finge que estás só com o
pequenino, mas despacha-me seja lá quem for.» Quando Vacas ordena até os anjos,
a fé e as crenças fogem p'ròs céus ou para o diabo que os carregue.
«Querida Dulcineia desculpe a hora mas
como hoje não vi ninguém e a minha empregada deixou o vosso pequenino por volta
das seis da manhã, depois de lhe dar o pequeno almoço, fiquei aflita. A empregada
voltou aqui à hora do almoço, do lanche, do jantar mas como me confidenciou de
que ouvira muitas vozes achou por melhor não vos interromper... não é que eu me
queira intrometer, como sabe mas um carro tão magnífico como o que está ali
parado dá nas vistas por ser tão raro que nunca por aqui se viu até o meu
marido que, como sabe é mecânico e possui standes, exclamou q'a bomba e q'a limusine... um Mustango
desportivo a turbo, caramba... prontos o que interessa é que tudo e todos tão
bem, olhe trago-vos aqui um docinho... nada de importância mas... », « ora, que
pena estar só eu aqui e o meu pequenino íamos já nos deitar mas agradeço-lhe
imenso porque este mini adora os seus
pudins a verdade é que quando os come dorme a noite inteira e com um ar bem
regalado. » Boas noites e bênçãos à direita, à esquerda, acima e abaixo
encerraram este diálogo para alívio da Dulcineia que só regressou à sala depois
de pelo ralo da porta se ter assegurado de que a senhoria tinha saído e
trancado o portão da quintinha. «Prontos, porra já falo como aquela gaja,
pessoal já podemos voltar à conversa que esta já está despachada.»
«... Chupa-lh'o tu,
Que és mais cortês:
Chupa-lhe bem,
Quanto mais chupas
Mais tem.»
(do Cancioneiro Popular
Português já acima mencionado)
«Ai q'a merda ó Lino agora
cantas-me disso ao pequenino», «não se agaste o doce irmãozinho... ai que o
vidente não vê... isto é apenas o final duma canção popular.» Lino ria que nem
um perdido com a criança em sono profundo nos braços «até que duvido que ele
tenha ouvido esta última parte e se alguma vez o fizer é karma... é, não é,
doce irmãozinho?» Vacas berrou «Merda mais a porra do carro daquele
caralho...», « mais carro ou limusine o que interessa é a estratégia para
actuarmos já, sim porque a noite vai avançada... ó doce vaquinhas - nasalava
agora Custódia o sotaque -, t'a lembras d'aquele cemitério à entrada de Mafra
de que muito falámos, daquele de fácil acesso p'rò meu Zêi? Bom as regras são
as seguintes e quem não aceitar que se retire. Quero uma cerveja negra média
para impedir cobradores. Os putos ficam todos nesta casa, os dois que vão
trabalhar na Ericeira como têm horários diferentes e compatíveis encarregam-se
da ida e da vinda da escola do outro, quanto ao pequenino os três sabem muito
como hão-de fazer... que, aliás, sempre o têm feito. Agora a cerveja! » Lino
correu a entregá-la e Custódia agarrando-a bem firme com ambas as mãos começou
a arrotar, a estrebuchar e a espumar da boca mas sempre firme sentada na
cadeira recitou
«
Eu t'enfeitiço pelo poder
De Maria Padilha e de toda
a sua família,
P'ra que não vejas sol nem
lua,
E muito menos se
caminhares nesta rua.
Não destinguirás esta casa
ou alma viva,
Tal te ordena a mágica
cerveja
Da maga da feiticeira da
meia idade,
Que te cruza os versos até
te foder.
Se olhares p'rò
restaurante
Como galinha sangrando
assim a tua alma espadaneja,
Como abanando espuma esta
negra cerveja.
Por Deus, pela Virgem, por
todo o Santo
Se quebre a tua alma e se
espalhe como sal,
Assim os acompanhe todo o
mal
E que os meus olhos o veja
Com a alegria do espumar
desta cerveja »
O
silêncio reinou em absoluto em toda a casa durante toda a récita e terminado o
acto Custódia levantou-se com brusquidão saindo porta fora regressando
meia-hora depois com um amplo sorriso no rosto « esta merda está entregue,
venha o viskie porque há que comemorar! ». Bebendo, rindo e contorcendo-se
Custódia prosseguiu perante o silêncio geral - normal nestas alturas -, «
Aliás... dá-me aí um charuto Lino - deu-lho e acendeu-lho -, aliás e como ia a
dezer, comigo é tudo tiro e queda apenas está aberta a porta desta casa prós jeovacas se o fito deles for apenas
tratar e cuidar dos putos o que é fácil porque os gajos p'ralém de não
acreditarem na vida após a morte juram que os espíritos que aparecem não são
dos mortos mas diabos o que p'ra nós é uma maravilha - mais um cálice de viskie
e mais outro prosseguiu numas baforadas do charuto -, d'este modo há q'arrancar
daqui p'ra fora imediatamente! ». Vacas levantou-se solenemente, apoiou as mãos
sobre a mesa e ordenou « Lino, tu ficas aqui p'ra instruir os putos disto tudo
e arrancas na carrinha para Odivelas assim que aqui tudo estiver organizado
quanto à Custódia, eu, o Borrego, a Dulcineia e o Sebastião partimos já... »
Dulcineia aflita com o mais pequenino conseguiu alterar tudo e enquanto naquela
casa ficaram Sebastião e Lino com três crianças, o Mustango arrancou com Vacas,
Custódia, Borrego, Dulcineia e o pequenito.
«
Merda - gritou Custódia - esta gaja por ter trazido o puto não nos permite a
ida ao cemitério... q'a foda, mas que se foda... promessa é promessa não é
Vaquinhas?... » « Deixa-te de merdas, sabes que eu sempre cumpri e se fosse
ligar às vezes que me falhaste... » « Silêncio - gritou Borrego -, estes dias
já me estoiraram o coiro e há que respeitar o que se conseguiu! ». Já saídos de
Mafra o carro virou repentinamente à esquerda para uma ruela nas traseiras do
cemitério e ali parou numa zona estratégica no completo silêncio e na total
escuridão. « Borrego vê-me lá essa trampa q'a madrugada vai avançada - tremulou
Custódia já arrependida das suas iras e dos medos dos retornos -, vá lá querido eu posso esperar... », « nada demais - retorquiu
Borrego -, vou apenas dedicar-te um jazigo depois logo cá viremos fazer o teu
trabalhinho e agora silêncio não se vá estragar esta noite. »

Borrego,
um homossexual mais do que assumido (aliás tal parâmetro afirmativo era-lhe
inútil), homem de vida limpa material e espiritualmente que constantemente
ouvia falar da vida para além da morte, facto que não lhe incomodava e por nada
lhe dizer não temia, amava Lino com uma profundidade indescritível tal como a
natureza... a paisagem ampla ou em pormenor era-lhe matéria para uma
exclamação, para uma contemplação, para uma novidade de alegria... Borrego era
a exclamação duende da vida quer na coragem, na defesa da natureza... Borrego
representa a força e a poesia. O seu amor era-lhe correspondido pelos cinco
reinos da natureza tal como por Lino que por ele estava sempre disposto a dar a
vida. Ninguém pode aqui considerar apologia do narrador quem o fizer que o
grosso desta matéria caiba-lhe onde quiser. « Vamos lá Vacas vai p'rà porta do
cemitério e tu Custódia vem comigo... traz-me o leite, o champagne e a cerveja
negra... Sebastião por favor vigia-me a área e faz os sinais com a lanterna se
necessário, quanto a ti Dulcineia fica-te aqui quentinha com o teu filhote
qu'isto é rápido. » Todos tomaram as suas posições e Borrego galgando o
tejadilho do carro encontrou-se ao nível daquele muro do cemitério e num
ligeiro salto acocorou-se sobre o tejadilho dum jazigo ao muro quasi geminado.
O ritual que me obsto a expor correu lindamente. O cemitério possuía seguranças
duma determinada empresa que ao observarem aparentes movimentos estranhos
saíram que nem comandos prontos para o ataque, mas o impávido Sebastião junto
ao portão com o Vacas desmaiado
implorou-lhes um isqueiro para acender um cigarro « este meu tio não aguenta
quando eu guio, aliás detesta carro e assim se fica... ai, cada viagem é um
inferno ainda por cima detestando cemitérios foi logo aqui que vim parar... »
Portão da instituição aberto, lume
para o cigarro, água, sumo de limão « talvez uma bjeca o reanime... » « Merda
não há p'raí um café - rosnou Vacas aos seguranças sabendo que tudo estava
concluído -, p'ra mim nem limão nem bebidas alcoólicas! » Café bebido, mil
perdões pedidos por parte dos seguranças que retornaram ao seu sono e com tudo
concluído o Mustango arrancou.
Os
risos ecoavam no veículo mas quem não ria era Borrego « vamos lá caramba
fizeste um trabalho i pêras, porra alegra-te... viste o Vacas nos braços do
Borrego, parecia a Virgem com o Redentor saído da cruz... e os papalvos dos
seguranças ali como barmanes a tudo dispostos para servir o senhor... ó
Vaquinhas olha q'até t'abriram as portas do além. » Custódia ria, soluçava e
arrotava mas que falava, falava « ó Borrego lança lá uma poesia... « A cona da
tua tia! ». Definitivamente Borrego estava estoirado, aliás que pedir mais a um
homem como aquele que havia dias que não tinha descanso « deixa-o! o gajo está
arrebentado, deixem-no descansar q'uestes dias para ele foram inferno e ainda
temos que descortinar a saída para toda a merda destes gajos... » Vacas falava
livremente porque sabia que Dulcineia dormia profundamente.
A
semana decorria normalmente assente apenas em consultas, raras desamarrações , pedidos sobre pedidos de tantos outros Saraivas deste mundo «semana baixa mas benéfica p'ráialma - disse
Lino circunspecto pela apatia do seu amor -, ó doce irmãozinho Vacas estou tão
preocupado com o meu Borrego... nunca mais o ouvi cantar... » « também eu meu
irmão mas a verdade é que se tem puxado demais por ele, não te preocupes...»
tttrrrrrriiiiiimmmmmmmm « Foda-se é o Luís! » « Ai... o sacristãozinho trafa de
Camarate... » « ó Lino deixa-te de merdas que este gajo é o apocalipse »
grunhiu Borrego.

« Conta o conto e reza a história
P'ra maior certeza do mundo:
Quem não aceita a memória,
Bate c'os queixos no fundo.
Vitória, Vitória,
Acabou a história.
( In Viagens pela Terra dos Outros, Jaras D'Affonseca, edit. FozIber,
2001 E C, ano chinês da serpente)
